domingo, 26 de fevereiro de 2012

A ESSÊNCIA DA CULTURA

RESUMO
As palavras ‘’cultura’’ e ‘’civilização’’, segundo a famosa definição de Edward Tylor, em 1871, designam a totalidade complexa que compreende os conhecimentos, as crenças, as artes, as leis, a moral, os costumes e todo e qualquer outro hábito, ou capacidade, adquirido pelo homem enquanto membro da sociedade; a cultura é a bússola de qualquer sociedade, sem a qual os seus membros não saberiam nem de onde vinham nem como se deviam comportar. O aparecimento do conceito de cultura como sinónimo de educação e de formação do espírito foi com efeito contemporâneo, na segunda metade do Século XVIII, de dois fenómenos importantes: a emergência do indivíduo como sujeito autónomo e o advento da nação como sujeito coletivo. As sociedades humanas são sociedades de cultura. Nisto, distinguem-se das organizações animais.
A cultura constitui o fundamento da vida social, ela desempenha no talhar das identidades coletivas uma função social. Sabemos que todos os seres humanos têm cultura, e que a cultura não é inata das pessoas, mas é adquirida na convivência em grupo. E o lugar ideal para a aquisição, desenvolvimento e conscientização da importância da cultura, ainda é a escola. Nela, professores e alunos trocam experiências, vivências em singular idades. Convivem diariamente com as diferenças e praticam a “inclusão cultural”. Diante do exposto, percebe-se a necessidade de investimento nas escolas, direccionado ao desenvolvimento artístico e cultural, no que diz respeito a profissionais da área artística, e a material de apoio específico ao desenvolvimento da cultura.
Nos finais do séc. XIX e princípios de séc.XX, começaram a surgir dúvidas entre os antropólogos quanto ao postulado do progresso contínuo e da evolução unilinear da cultura. Os antropólogos iniciaram o seu trabalho dirigindo a sua atenção, fundamentalmente, para as ‘’culturas menores’’ das sociedades pequenas ou «primitivas». Só gradualmente se aventuraram a tentar incluir, igualmente, as ‘’civilizações maiores’’ e ‘’mais ricas’’, conhecidas através da sua história.
Para o grande sociólogo e filósofo francês Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (1798-1857), os factos sociais e culturais continuavam a ser todos meramente sociais e, no essencial, era também a posição do sociólogo francês David Émile Durkheim (1858-1917). A Cultura atua tendo a civilização como meio. A civilização refere-se assim, a uma cadeia essencialmente temporal de progresso variável cumulativo – um progresso irreversível.
Segundo Francis Fukuyama,
‘’As civilizações desenvolvem-se porque dispõem de um instrumento de expansão que é uma organização militar, religiosa, política ou económica que acumula os excedentes e os investe em inovações produtivas’’.
A cultura não está pois, especificamente associada aos valores, mas a sua parte, ou meio civilizacional é tecnológica e cumulativa. Como todas as ideias importantes, a ideia de cultura foi obra de muitos espíritos e desenvolveu-se gradualmente. Ainda há muitas grandes nações civilizadas, como por exemplo a francesa, que se recusam a admitir a palavra «cultura» no seu vocabulário intelectual. Quando Comte fundou a Sociologia e cunhou o seu nome, há mais de um século, imprimiu nela o cunho de social.
A palavra ‘’social’’, é em sí, uma designação relativamente recente. O termo romano era civilis, civitas, de civis, um ‘’cidadão’’, correspondendo à definição de Aristóteles do homem como zoon politicon ou ‘’animal político’’ – um animal civil para os Romanos, um animal social para nós. Quando Aristóteles queria falar genericamente daquilo a que chamamos «sociedade» e «cultura», empregava a palavra polis, que continuava a sugerir cidadela e muralha, cidadãos livres com o direito de votar e de lutar. A cultura é vista como a principal característica humana, que desenvolveu-se simultaneamente com o equipamento fisiológico do homem. A cultura molda uma vida num ser biologicamente preparado para viver mil vidas.
Para Kroeber, cultura ‘’é a totalidade de usos e adaptações que se relacionam com a família, a formação política, a economia, o trabalho, a moralidade, o costume, o direito e as maneiras de pensar’’.
A cultura, portanto, deve ser vista e entendida como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, tem visões desencontradas das coisas.
 
CARATERÍSTICAS DAS CULTURAS
É evidente que as culturas, no sentido antropológico do termo, não são entidades dotadas de uma substância intemporal e permanente tudo porque elas não constituem totalidades orgânicas com fronteiras impermeáveis, antes são constantemente trabalhadas, moldadas, recompostas por incessantes processos de empréstimos e de trocas. Porém, cada uma delas possui uma certa configuração própria que permite identifica-la e distingui-la das suas vizinhas.
O antropólogo Edward Tylor dizia que:
‘’Culture is that complex whole wich includs knowledge, belief, morals, law, custom, and any other capabilities and habits acquiredby a man as member of society’’
Toda a cultura vive e prospera porque está em contacto com as outras. Estes múltiplos laços são necessários ao seu enriquecimento pois, de outro modo, retraída sobre sí mesma, ela ameaçaria.
Como sublinha Raul Altuna,
‘’as culturas devem tornar-se cada vez mais humanas, múltiplas através dos tempos, criativas, dinâmicas, e devem acompanhar as vicissitudes dos grupos sociais, que não devem permanecer imóveis’’.
A função da cultura altera a sua direção: enquanto nas sociedades pré-modernas ela permitia marcar as diferenças de estatuto, passa doravante a sublinhar a proximidade entre os membros de um mesmo conjunto social e serve para consolidar uma nova forma de comunidade, a nação. A cultura desloca o eixo da diferenciação. Enquanto na sociedade tradicional ela reitera a demarcação social rígida entre estrato dirigente e massas camponesas segundo uma estratificação horizontal, estabelece doravante, entre as sociedades modernas, linhas de separação nacional segundo cortes verticais
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
§  DIECKHFF, Alain (2001) ‘’A Nação em todos os seus Estados – As identidades Nacionais em Movimento’’, Stória Editores, Lda, Lisboa.
§  HUNTINGTON, Samuel (2001) ‘’O CHOQUE DAS CIVILIZAÇÕES – e a Mudança na Ordem Mundial, 2ªEdição, Gravida, Lisboa.
§  NETO, Teresa da Silva (2010) ‘’História da Educação e Cultura de Angola: Grupos Nativos, Colonização e a Independência’’, Editora Alpiarça, Brasil.
§  PE.ALTUNA, Raul Ruiz de Asúa (2006) ‘’Cultura Tradicional Bantu’’, Editora Paulinas, Luanda.
§  KROEBER, A.L., (1952) ’’A Natureza da Cultura’’, Edições 70, Lisboa.
§  WARNIER, Jean-Pierre (2002) ‘’A mundialização da cultura’’, 2ªEdição, Editorial Notícias, Lisboa.
Leia também:
§  Roque de Barros Laraia – ‘’CULTURA: UM CONCEITO ANTROPOLÓGICO’’.
§  O que é Cultura - Liene Alves Santos

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

PAÍSES DE ÁFRICA QUE NÃO SOFRERAM A COLONIZAÇÃO

RESUMO
A colonização está associada à ocupação de uma terra estrangeira,ao seu cultivo, à instalação de colonos. A África dispõe de uma longa história anterior à invasão ocidental. Reinos poderosos e imensos impérios surgiram em vários pontos do continente, configurando estruturas sociais, políticas e económicas em nada devedoras em termos de progresso e de produção de saber, aos centros europeus do mesmo período. Este seria por exemplo, o caso do império do Mali (Séculos XIII/XVI), um dos mais fabulosos reinos jamais constituídos na história da humanidade. Sabe-se também, nos dias de hoje, que civilizações como a Egípcia foram largamente subsidiadas por fortes influências culturais com origem no vasto interior do continente, pelo que algumas publicações definem o Egipto como uma civilização negra.
Quando um determinado território é reduzido à colónia, significa dizer que a mesma não tem liberdade nem soberania, pois esta pertence integralmente à metrópole; uma colónia não tem sequer personalidade reconhecida.
Como sublinha René Rémond,
‘’no regime colonial, as populações autóctones estão sujeitas a um regime jurídico diferente do dos cidadãos da metrópole, porém, mesmo que a colonização tenha como consequência melhorar as condições materiais, elevar o nível de vida, corrigir um certo numero de injustiças, por exemplo, suprimir a escravatura, mantém uma desigualdade de direito entre os indivíduos, aplica duas leis, dois direitos.  
TIPOS DE COLONIZAÇÃO
A dominação dos colonizadores e as suas consequências deram origem a muitas situações típicas; algumas das suas características conseguiram sobressair parcialmente à própria descolonização. Assim, podemos distinguir em primeiro lugar,
§  a colonização de tipo antigo, de tipo expansionista, num estádio de livre concorrência do desenvolvimento do capitalismo. O caso da Argélia, conquistada em 1830, representa um dos seus últimos exemplos;
§  a colonização de novo tipo, ligada à Revolução Industrial (que segundo Jean-Pierre Rioux, é a certidão de nascimento do nosso mundo de hoje) e ao capitalismo financeiro, que diz respeito à maior parte das conquistas francesas posteriores a 1871, em especial Marrocos, se bem que elas estejam  relacionadas com outras considerações; tal como está a política de expansão da Grã-Bretanha e da Alemanha na África Oriental e na África do Sul, etc.;
§  o imperialismo sem colonização, por exemplo o Império Otomano – a título provisório, como atesta o caso do Egito em 1881. Desenvolveu-se uma forma mais pura, isto é, sem a ideia de instalar colonos – na América Latina, onde a City reinou, tanto na Argentina como no Perú, até ceder o lugar aos Estados Unidos. Este imperialismo sem bandeira sobreviveu aos movimentos de independência da segunda metade do século XX.
O séc.XV, os portugueses tinham marcado o início da expansão europeia e de um comércio à escala global. Contudo, a maior parte das estruturas políticas tradicionais – organizadas ou não na forma de aparatos de Estado – manteve-se incólume ao longo dos séculos XVI/XIX. Foi apenas com a aceleração da chamada Corrida Colonial que a Europa partiu para a conquista da totalidade do continente. 
Em termos históricos, os últimos 40 ou 50 anos são um período de grandes lutas e vitórias para os africanos, de enormes progressos na emancipação dos povos do continente. Depois da Segunda Guerra Mundial, durante a qual africanos lutaram nas fileiras dos exércitos aliados contra o nazismo, os povos colonizados foram conquistando a independência, em processos políticos diferenciados, alguns através de lutas armadas de libertação nacional, como os da Argélia, da Guiné-Bissau, de Angola ou de Moçambique, existindo hoje meia centena de estados africanos independentes.
Segundo Amílcar Cabral,
‘’o exame da história dos povos africanos demonstra que estes nunca deixaram de lutar com todas as suas forças contra a dominação estrangeira. A luta pela liberdade e contra a dominação estrangeira é um factor concreto e permanente da tradição histórica dos povos do continente africano e foi realizada sob diversas formas, confirmando a inalienável vocação destes povos para determinarem o seu próprio destino – livres e independentes de pressões estrangeiras. O direito à autodeterminação e à independência traduz essa combatividade tradicional e sempre manifesta dos povos africanos contra a dominação estrangeira’’.
Porém, a corrida para África tomou novo aspecto logo após a Conferência de Berlim de 1884/1885; assumiu duas formas principais: competição, conflitos e desentendimentos entre as grandes potências; multiplicação dos tratados com os chefes africanos. Reuniram-se nesta conferência as principais potências coloniais europeias, com interesses territoriais e não só no continente africano. As principais potências participantes que praticamente dividiram o continente entre eles eram: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra, Bélgica, Inglaterra e Reino Unido.
Apenas quatro países de África escaparam da dominação ocidental, e citámo-los:
§  EGIPTO – formalmente independente, mas na prática governada indirectamente por Londres. Constituiu um protectorado britânico até 1922. A Zona do Canal de Suez, de interesse estratégico vital para o Império Britânico, foi mantida sob controlo comercial militar directo da Inglaterra. Nacionalizado apenas em 1956 no governo de Gamal Abdel Nasser, mesmo assim provocou agressiva resposta por parte do Ocidente através de acção militar conjunta da Inglaterra, França e Israel contra o Egipto.   
§  UNIÃO SUL-AFRICANA (África do Sul) – embora independente, era dominada pela minoria branca, particularmente pelos bôeres, descendentes de colonos holandeses que nunca pouparam esforços em manter a população negra sob as mais abjectas práticas de discriminação e exploração, mais tarde configuradas no abominável sistema do Apartheid, que foi implantado em 1948 e só abolido em 1994.
§  LIBÉRIA – criada em 1822 por iniciativa do governo americano com o intuito de ‘’receber de volta’’, ou seja importar os escravos recém-libertados. O nome do país deriva de Liberty, que significa liberdade em inglês, e o nome da capital, Monróvia, foi dado em homenagem ao presidente Monroe, dos EUA. Sua primeira constituição foi elaborada em Harvard e sua bandeira foi copiada da americana. Quanto à moeda oficial, adoptou-se o dólar liberiano. Na verdade, a Libéria constituiu-se num protectorado americano, no qual uma elite negra passou a exercer o poder em nome dos seus antigos amos e senhores. 
§  ETIÓPIA ou Abissínia, na prática a única nação africana independente. Trata-se de um reino antiquíssimo, que a tradição local pretende remontar a Rainha de Sabá e ao Rei Salomão. Após a Arménia, é o segundo mais antigo Estado cristão do mundo. A Etiópia resistiu a uma primeira tentativa de invasão italiana e assombrou o mundo ao derrotar os invasores em 1896 em Adowa. Ocupado pela Itália fascista entre 1935 a 1941, reconquistou posteriormente sua independência. 
Os benefícios trazidos pelo colonialismo foram todos de mérito discutível. A rede dos caminhos-de-ferro por exemplo, foi estabelecida com a finalidade exclusiva de escoar as riquezas do interior da África para os mercados de além-mar e não para ligar os países do continente entre sí.
BIBLIOGRAFIA
§  CAPOCO, Zeferino (2012) ''Nacionalismo e Construção do Estado-Angola (1945-1975)'', Escolar Editora, Lobito/Angola.
§  FERRO, Marc (1996) ''História das Colonizações'', Das Conquistas às Independências – Sécs.XIII-XX, Editorial Estampa, Lisboa.
§  M’BOKOLO, Elikia (2007) ''ÁFRICA NEGRAHistória e Civilizações do SÉCULO XIX aos nossos dias'', Tomo II, Edições Colibri, Lisboa.
§  SOUSA, Isabel; Olívia Soares (2001) ''Pensar em História'', Texto Editora, Lisboa.
§  RÉMOND, Réne (2009) ''Introdução à História do Nosso Tempo – do Antigo Regime aos Nossos Dias'', Gravida, Lisboa.
§  WALDMAN, Maurício: Guerras de Libertação na África.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

RELEVÂNCIA HISTÓRICA DA RELIGIÃO TRADICIONAL AFRICANA

RESUMO
A religião é em todos sentidos, objeto muito relevante par a Nação e é um dos mais importantes assuntos que pode interessar ao governo. Cada uma a seu modo, todas as religiões exaltam a compaixão e a fraternidade universal, a sinceridade e a honestidade, a humildade e a mansidão, valores incontestáveis que ninguém quer ver desaparecer. O universo da religião foi sempre complexo, contraditório e conflitivo. Ao longo de milhares de anos, a Religião tem tido um importante papel na vida dos seres humanos, que de uma forma ou outra, ela existe em todas as sociedades humanas conhecidas. As sociedades mais antigas de que apenas temos conhecimento através dos vestígios arqueológicos, mostram traços claros de símbolos e cerimónias religiosas. Ao longo da história subsequente, a religião continuou a ser um elemento essencial da experiência humana, influenciando o modo como vemos e reagimos ao meio que nos rodeia.

Em nossa opinião, a Religião constitui um dos grandes e inevitável meio de socialização tudo porque ela descarta a possibilidade de exclusão entre as pessoas, baseia-se na igualdade e na fraternidade como actos de indiscutível importância, promove a auto-estima, a solidariedade, a harmonia entre diversificadas pessoas não dependendo das suas origens nem mesmo da sua cor da pele; ela é um verdadeiro fenómeno de sociabilidade e não só.
Ora, o estudo da religião representa um desafio na medida em que coloca fortes exigências à imaginação sociológica, antropológica, histórica e ontológica. Ao analisarmos as práticas religiosas, temos de interpretar crenças e rituais muito diferentes dos que encontramos em várias culturas humanas.
Como afirma Anthony Giddens no seu livro Sociologia:
‘’Temos de reconhecer a diversidade das crenças religiosas e dos modos de conduta, mas devemos igualmente analisar a natureza da religião como fenómeno de carácter geral’’. 
As religiões implicam um conjunto de símbolos que invocam sentimentos de reverência ou temor, ligados a rituais ou cerimónias realizados por uma comunidade de crentes. Em algumas regiões, as pessoas acreditam em deuses personalizados…os rituais associados à religião são muito diversos e os actos rituais podem incluir orações, cânticos, canções, etc. O fenómeno religioso, seja o que for o que se pense das suas origens e do seu conteúdo, é um aspeto importante da vida das sociedades contemporâneas e que contribui para as especificar. A adesão a uma crença religiosa tem naturalmente efeitos sobre o comportamento dos indivíduos em sociedade de modo a modificar a sua atitude, a infletir o seu voto, a influir nas suas opiniões políticas ou sociais. Alem disso,  o fenómeno religioso comporta geralmente uma dimensão social porque é vivido numa comunidade; a fé é ensinada, recebida, vivida numa igreja; a religião suscita assim a existência de comunidades confessionais no interior da sociedade global e esta não pode ignorar o fenómeno religioso e desinteressar-se das presenças das igrejas.
COMO COMEÇARAM AS RELIGIÕES?
Foram registadas várias formas de religião durante toda a história. Já houve muitas tentativas de explicar como surgiram as religiões. Uma das explicações é que o homem logo começou a ver as coisas a seu redor como animadas. Ele acreditava que os animais, as plantas, os rios, as montanhas, o sol, a lua e as estrelas continham espíritos, os quais era fundamental apaziguar. O antropólogo Tylor batizou a essa crença animismo e que, segundo ele, o desenvolvimento religioso caminhou paralelamente ao avanço geral da humanidade, tanto cultural como tecnológica, primeiro em direção ao politeísmo (crença em diversos deuses) e depois ao monoteísmo (crença num só deus). Alguns pesquisadores veem a religião como um produto de fatores sociais e psicológicos.
A ÁFRICA TRADICIONAL
No essencial, a África Tradicional associa-se a uma economia aldeã, considerada como de produção suficiente, ao qual associa um modo de vida rigorosamente comunitário. Mais do que em tribos ou em etnias, a identidade do continente está centrada no núcleo familiar. A família africana é uma categoria muito ampla, incluindo agregados e pessoas consideradas pelo homem ocidental enquanto parentes distantes, daí com razão, ser dominada de família extensa.
Por muitas culturas do mundo tradicional africano, a comunicação dava-se por meio da oralidade, o conhecimento era guardado por profissionais como os griots, homens de cerimónia prodigiosa que armazenavam na sua mente milhares de contos, histórias e provérbios. Deste modo, a sociedade tradicional africana, antes de ‘’não ter evoluído para a escrita’’, simplesmente optou por não utilizá-la.
Recorde-se de que do ponto de vista da africanidade, o conceito de analfabetismo é absolutamente estrangeiro. Outra ponderação importante é que a África também constitui um dos berços da escrita. No continente foram utilizados sistemas de escrita com o núbio antigo, o copta, o tifinagh, o ge’ez e o banum. A análise da sociedade, da cultura e da História da África Tradicional, deve ser feita levando em consideração toda uma série de particularidades. O surgimento dos Estados, por exemplo, ocorreu de forma diferente dos impérios asiáticos ou pré-colombianos. Estes Estados tinham a sua própria organização quer político-administrativa, socioeconómico, mágico-religiosa diferenciadas e nalgumas vezes semelhantes umas das outras.
RELIGIÃO TRADICIONAL AFRICANA
As religiões africanas devem ser analisadas sem preconceito, porque muito longe de formarem um apanhado de superstições, as noções religiosas do continente africano relacionam-se directamente com factos sociais e com a exploração dos recursos naturais, fundamentais para a permanência do mundo tradicional. Por exemplo o solo, para a maioria dos povos africanos, era entendido como um bem colectivo, assim devendo permanecer por constituir herança dos espíritos ancestrais. 
No geral, a aldeia africana mantém uma intensa relação com o meio natural circundante, do qual retira a totalidade dos elementos necessários para a sua vida. A religiosidade encontra expressão em marcas apropriadas directamente da natureza, como é o caso dos baobás, entendidos como morada dos deuses e dos espíritos. Em muitas regiões do continente africano, o baobá é assumido como a árvore da aldeia, sendo honrado pelos rituais sagrados. A Religião Tradicional Africana contém elementos de cada uma das denominações apontadas, mas nenhuma delas esgota nem explica satisfatoriamente o seu conteúdo.
Embora as manifestações desta Religião Tradicional e algumas crenças variem de zona cultural a outra e até de um grupo a outro, pode falar-se com exactidão de «Religião Tradicional Africana». A unidade das crenças, o substrato fundamental, o significado e finalidade dos cultos, ritos e símbolos e a homogeneidade das aspirações mostram-se idênticos em toda a África Negra. Os seus traços essenciais são comuns e os acidentes não rompem a unidade básica. A África Negra conserva uma religião que recebeu dos seus antepassados, como factor decisivo da sua cultura. É um dado original e específico destes povos.
Como afirma Raul Altuna no livro Cultura Tradicional Bantu:
‘’A organização política e social, os sistemas económicos e as influências recebidas do Neolítico Sariano, do Egipto faraónico, do Islão e do Cristianismo diversificaram algumas crenças e sobretudo, manifestações religiosas entre os povos pastores, caçadores ou agricultores, entre os da costa ocidental ou oriental, entre os povos da floresta e da savana ou entre os povos bantos’’.
Todavia, assim como não se pode contestar a unidade cultural básica da África Negra, assim também aparece indubitável uma atitude religiosa básica comum a toda África Negra.
A RELIGIÃO COMO PRODUTO NATURAL
Ao iluminismo coube uma certa apologia de uma “religião natural” (religio naturalis), já que pela razão era possível o conhecimento de Deus e de sua criação, pode-se indagar se no fundo desta assertiva não estaria a ideia de que existiria um sentimento religioso profundamente arraigado na chamada “natureza humana”. Por outro lado, tal perspectiva dirigia a observação para um terreno pouco propício a uma abordagem que levasse em conta a ideia de uma história das religiões e, sobretudo, as diferentes formas de expressão desse “sentimento natural”, há muito registrados por viajantes europeus em lugares habitados por povos considerados primitivos e exóticos.
Estruturando-se como disciplina ainda na primeira metade do século XIX, a etnologia dedicou-se a inventariar costumes e práticas das chamadas “sociedades naturais”, em que, na quase totalidade dos casos, a determinação religiosa parecia oferecer uma chave importante, se não fundamental, para a organização e o funcionamento destes grupos “primitivos”. Desde seu nascimento, portanto, a teoria racionalista do universalismo da natureza humana enfrentou inúmeras dificuldades. Mas o contacto com o “outro”, que há muito inaugurara uma sistemática hierarquização política e cultural, ganhou no século XIX o reforço poderoso do discurso positivista e evolucionista para a análise de sistemas religiosos diferentes e heterodoxos.
Baseado sobretudo na teoria dos três Estados formulada por Augusto Comte (1798-1857) em 1819, este modelo pregava que a humanidade passara por três estados ou atitudes mentais ao tentar conceber a realidade do mundo e da vida:
O TEOLÓGICO - em que predominaram as forças sobrenaturais;
2ºO METAFÍSICO - caracterizado pela crítica vazia e pela desordem, fruto de um liberalismo mal concebido;
3ºO POSITIVO - que superaria as explicações insuficientes do mundo ao substituir as hipóteses religiosas e metafísicas por leis científicas inquestionáveis.
Discípulo de Saint-Simon (1760-1825) ate 1824, Comte produziu a base de sua teoria em meio a um conturbado momento político que, segundo ele, ameaçava levar a Franca a anarquia, e para o qual a solução seria a adopção de um novo sistema orgânico, cientifico, mas curiosamente denominado “Religião da Humanidade”. Proposta messiânica não a toa herdeira da orientação romântica do nobre mestre admirador dos princípios racionalistas de Napoleão.
As influências do positivismo de Comte, aliadas as teses evolucionistas de H. Spencer (1820-1903), marcadas pelo modelo biológico e inspiradas pela teoria de Charles Darwin (1809-1882), certamente estiveram presentes nas conclusões de E.B. Taylor (1832-1917), sobre a cultura e a religiosidade primitivas, contidas no clássico Primitive culture, de 1871. Para Taylor o animismo — tese segundo a qual, para o homem primitivo, tudo e dotado de alma, o que explicaria o culto aos mortos e aos antepassados, além do nascimento dos deuses — era a característica original da criação religiosa, passando do politeísmo ao monoteísmo, ponto máximo de um processo de evolução espiritual. Também para J.G.Frazer (1854-1941) estas seriam as principais etapas do desenvolvimento religioso da humanidade. Estes dois últimos autores, referências fundamentais no processo de elaboração de uma história das religiões, não só procuraram demonstrar e comprovar a validade de suas interpretações eurocêntricas, como encaminharam suas reflexões a partir de uma busca da origem e da evolução da religião, aqui considerada no singular. Apesar das controvérsias com seu discípulo A. Lang (1844-1912) sobre a origem necessariamente animista das religiões primitivas, as teses de Taylor, endossadas por Frazer, tiveram grande peso nas distinções que separavam, na passagem do século XIX para o XX, magia e religião, dando-lhes agora uma conotação científica. Para Frazer, o homem primitivo, vivendo no primeiro tempo de sua história, acreditava que as regras da magia eram idênticas as da natureza, o que o levava a esperar uma resposta adequada e imediata da natureza para a solução de suas dificuldades.
Segundo Jacqueline Hermann:
‘’Conferia-se a religião um sentido pragmático, mas sobretudo social, na medida em que possuía o papel de reestruturar a vida do grupo através de uma reaproximação ritual com o tempo mítico das origens; mas o estudo do papel social das religiões, ou de suas crenças e práticas, beneficiou-se ainda da constituição de um novo campo de conhecimento que se estruturava como disciplina autónoma a partir do final do século XIX: a sociologia’’.
A RELIGIÃO TRADICIONAL COMO AGENTE DE COMUNICAÇÃO
Não existe nenhuma instituição, quer no campo social, seja no político ou ainda no económico, que não assente um conceito religioso. Durante muito tempo, afirmou-se que os povos africanos eram povos sem religião nenhuma, mas estes povos são na realidade dos mais religiosos da Terra. O homem negro-africano é u m crente por vocação. A sua fé penetra a vida e constitui-o religioso, cultural, simbólico, ritualista, celebrante. A Religião Tradicional está enriquecida com as crenças e manifestações necessárias para ser considerada como autêntica religião, noção clara de Deus.
A Religião Tradicional é caracterizada por uma unidade que brota da crença em um só Deus Criador da única vida participada.
Assim sendo, a chave para entender esta Religião Tradicional, não pode ser senão a compreensão da participação, da solidariedade vertical e horizontal, do ensaio de viver em comunhão fortificante com os canais de vida, com os meios vitais existenciais, com a comunidade. Ela procura reconhecê-los, valoriza-los, colocá-los no seu lugar exacto, propicia-los e aplica-los.
A Religião Tradicional concretiza-se quando o indivíduo e a comunidade, comunicam com o mundo invisível e com o visível através dos ritos, orações, sacrifícios, festas, ritos de iniciação, etc.
A Religião Tradicional preocupa-se com o homem na sua totalidade; isto é, é uma religião antropocêntrica, que deve activar-se em favor do homem...ela dá forma, condiciona e vivifica as instituições e manifestações familiares, sociais e políticas, a sua essência consiste na prática e não na explicação teológica…a religião não é motivo de êxtase nem de conflitos internos…o negro é tão profundamente crente como tolerante. A religião em África não se baseia só no respeito a dogmas fixos que impõem render homenagem a Deus…a religião em África é a armadura da vida…informa todas as acções públicas e privadas do homem negro…tentar compreender a África, sem a contribuição das religiões tradicionais, seria como abrir um gigantesco armário esvaziado do seu conteúdo mais precioso.
A religião na África foi e deve continuar a ser um factor dinâmico de civilização. Ele permitiu aos povos africanos superar através da sua larga história, as piores provas e deve servir-lhes de meio essencial para edificar o seu futuro e contributo para o enriquecimento espiritual da humanidade. O homem do diálogo não deve subestimar a actual influência das religiões tradicionais que moldaram o homem africano. A religião formou um ambiente de crescimento e desenvolvimento das civilizações africanas que, ainda hoje, não podemos compreender…
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
§  GAARDER, Jostein, et all (2001) ''O Livro das Religiões'', Companhias das Letras, São Paulo.
§  GIDDENS, Anthony (2010) ''Sociologia'', Fundação Calouste Gulbenkian, 4ªEdição, Lisboa.
§  PE.ALTUNA, Raul Ruiz de Asúa (2006) ''Cultura Tradicional Bantu'', Editora Paulinas, Luanda.
§  RÉMOND, Réne (2009) ''Introdução à História do Nosso Tempodo Antigo Regime aos Nossos Dias'', Gravida, Lisboa.

§  VATTEL, Emer de (2004) ‘’Direito das Gentes’’, Editora Universidade de Brasília, Brasília.
Leia também:
A África Tradicional – Maurício Waldman
História das Religiões e Religiosidades - Jacqueline Hermann



domingo, 27 de novembro de 2011

CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS DOS GRUPOS ETNOLINGUÍSTICOS DE ANGOLA

INTRODUÇÃO
Angola como sabemos, é um país africano imenso, que tem a extensão territorial de 1.246.700 Km2, rodeado pela República Democrática do Congo, pela Zâmbia a leste e pela Namíbia a sul, ocupada por cerca de uma centena de etnias e subetnias, de origem Bantu.
Segundo Herlânder Felizardo, por seu turno, tenta fazer uma abordagem sobre os Bantu. Para ele,
’o termo Bantu foi proposto na África do Sul, em 1856, pelo alemão Wilhehm Bleek, para se referir a uma ‘’família’’ de línguas que usavam uma raiz ntu para ‘’pessoa’’; muntu, singular, e bantu, plural na grande maioria’’.
A sociedade angolana é plural, composta por vários grupos culturais. A maior parte dos povos de Angola são falantes de língua Bantu, integrando um grupo que ocupa um terço do continente africano.
Os principais grupos etnolinguísticos entre os povos angolanos são os seguintes: 
1º OS OVIMBUNDUgrupo etnolinguístico Umbundu
Com mais de um terço da população (33%), sendo o maior de todos e o mais homogéneo de Angola, incluía as províncias de: Benguela, Huambo e Bié. Em finais do século XIX estavam organizados politicamente em 12 reinos, dos quais o do Bailundo, Bié, Chyaka, Galangue e Andulo eram os mais poderosos. O seu idioma é o Umbundu. As três funções mais importantes desempenhadas pelos reis consistiam em comunicar com o mundo espiritual, relacionar-se com os outros povos e administrar a justiça.
O rei era o sacerdote supremo do seu povo, uma vez que os seus antepassados eram as principais divindades comunais. Ele e os seus curandeiros ofereciam sacrifícios no altar régio com o objectivo de controlar os elementos e assegurar a fertilidade e o sucesso nas caçadas. Cada rei umbundu exercia a sua autoridade sobre uma série de sub-reinos, ou atumbu. O reino maior de todos, o Bailundo, era composto por cerca de 200 atumbu, governado cada atumbu, entre três a trezentas aldeias.
Os Ovimbundu eram temidos durante muito tempo pelos seus vizinhos por causa das suas incursões de intuitos escravocratas. Estes agricultores que por algum tempo se transformaram em caravaneiros de longo curso, raramente se sentiam tentados a rejeitar os moldes europeus e, por esse facto, foram frequentemente usados para colaborar com os portugueses.
2º OS KIMBUNDO 
Os M’bundu (Kimbundu), situados entre os rios Cuanza e Dande, com cerca de 26% da população, abrangendo Luanda, na costa, até à bacia do Cassange, na parte oriental do distrito de Malange. Faziam parte deste grupo Kimbundu vinte povos: Ambundu, Luanda, Luango, Ntemo, Puna, Dembo, Bangala, Holo, Cari, Chinje, Minungo, Bambeiro, Quibala, Haco, Sende, Ngola ou Jinga, Bondo, Songo, Quissama e Libolo. Exprimem-se em Kimbundu.
Como afirma Segundo Teresa Neto:
 ‘’ grupo Kimbundu constitui o grupo étnico, no centro do país, que mais assimilou os costumes coloniais portugueses’’; e, Lawrence W.Henderson corrobora afirmando também que ali foi o centro da assimilação porque na abordagem dele: ‘’os Kimbundu aprenderam o português ao serem assimilados, como foram eles quem produziu as primeiras obras das literaturas escritas angolana’’.
3º OS BACONGO
Com cerca de 13% da população, era o terceiro maior reino de Angola. Era composto por oito povos, relacionados entre sí, os quais ocupavam Cabinda e distrito do Zaire e Uíge.
Aquando à chegada dos portugueses em Abril de 1482, era o mais forte e estruturado nessa região da África Central. Mas ao fim de dois séculos de colaboração intensa com os portugueses, no comércio de escravos, o que de início constituiu um factor de enriquecimento das linhagens aristocráticas, teve gradualmente como consequência o enfraquecimento das estruturas sociopolíticas.
4º OS OVAMBUS – grupo etnolinguístico Ambo Criadores de gado e lavradores
Este grupo representava menos de 3% da população, possuíam a maioria do gado em Angola, sendo os principais fornecedores do planalto central. A sua economia devia classificar-se como agro-pastoril, uma vez que dependiam tanto da agricultura como da criação de gado, dando preferência em possuir uma grande manada, e que para eles o gado constituía uma parte importante da vida, embora envolvam mais na agricultura do que os seus vizinhos Herero.
Os Ambo ocupavam a fronteira entre Angola e a Namíbia. Em Angola aquela dominação aplicava-se ao grupo etnolinguístico que incluía os Cuanhama, Cuamata, Dombandola, Evale e Cafima.
Os Ambo não viviam em aldeias como os Umbundu. A população rural dividia-se em comunidades ou distritos, tendo cada comunidade um numero que oscilava entre as cem e as trezentas famílias, que ocupavam uma área de limites mal definidas, chamadas chilongo. Os Ambo não tinham um tipo centralizado de monarquia, mas todos os povos tinham o seu rei. Entre os Ambo de Angola, os reis dos Cuanhama desempenharam um papel preponderante.
5º OS NHYANECAS-HUMBI – grupo etnolinguístico Lunhaneca – Conservadores
Os Nhanekas-Humbe, situando-se geográfica e culturalmente entre os Umbundu e os Ambo, representavam cerca de 5% da população angolana. Dispersaram-se pelos distritos de Huíla e Cunene, desde as vilas de Chongoroi e Quilengues, a norte, até à fronteira da Namíbia, a sul. Este grupo é composto por dez povos. Os Muílas, os Gambos, os Humbes, os Donguenas, os Hingas, Cuancuas, Handa de Quipungos, Quilengues-Humbes e Quilengues-Musos.
O grupo Nhaneka-Humbe era o mais conservador de todos os povos de Angola, são acima de tudo pastores, deixando para as mulheres todas as atividades agrícolas que praticam. Eles tinham sido menos influenciados do que os outros pela cultura europeia, apesar de um número relativamente grande de colonos portugueses ter invadido o seu território em meados do século XIX. Este conservadorismo que resistiu à urbanização fez com que Sá da Bandeira/Lubango, situado em pleno território Nhaneka-Humbe, fosse a única cidade em Angola a ter uma maioria branca.
6º OS HEREROS grupo etnolinguístico Tcherero - Verdadeiros pastores
Os Hereros podia disputar com os Nhaneka-Humbe a classificação de «o mais conservador», mas como os povos Herero eram pouco numerosos, o seu lugar na cena angolana revestia-se de menor importância.  Os poucos milhares de Dimbas, Chimbas, Chavicuas, Hacavonas, Cuvales, Dombes, Cuanhocas e Guendelengos ocupavam o território situado nos distritos de Benguela, Moçamedes e Huíla, chegando ao interior a partir do deserto de Namibe.
Do ponto de vista económico, os Herero eram, entre todos os angolanos, os que mais se dedicavam à criação de gado. Os grupos vizinhos, os Ambo e os Nhaneka-Humbe, davam mais importância à sua riqueza pastoril do que à agrícola, tudo porque o grande valor que davam ao gado não era apenas fundamental para a economia mas também para o seu sistema cultutal de valores, pois repudiam quaisquer atividades sedentárias, não descartando a sua longa tradição agrícola. Em 1958, o membro mais velho Herero lembrava-se ainda do tempo antes da agricultura ter entrado na economia do seu povo.
7º OS LUNDA-TCHOKWE grupo etnolinguístico Tutchokwe -Caçadores por excelência
Conhecidos pelo seu talento artístico, estes povos têm-se deslocado para Angola a partir da região do Congo-Catanga ao longo dos últimos 150 anos, sobretudo como caçadores e comerciantes. Os povos do grupo Lunda-Chokwe incluíam os Lunda, Lunda-lua-Chindes, Lunda-Ndembo, Mataba, Cacongo, Mai, e Chokwe. Na denominação composta deste grupo, «lunda» refere-se ao grande império da África Central, que no século XVIII enviou chefes políticos de Katanga/Shaba, no Zaire, para as zonas mais populosas do Leste de Angola. Entre os povos que os chefes lunda foram encontrar, estavam os Chokwe, que viviam para lá da religião banhada pelos rios Kasai, Cuango, Zambeze e Cuanza, no Centro-Leste de Angola.
A organização sociopolítica dos Chokwe assentava em doze clãs matrilineares, governados por chefes de linhagens menores. Os Lundas impuseram-se como dirigentes políticos aos governantes locais e fundaram reinos, segundo o modelo que vigorava no império lunda.
Em finais do século XIX, os Chokwe eram o povo mais agressivo e mais independente em toda a Angola, mostrando sê-lo ao século passado, no terem começado a expandir-se em direcção ao Centro de Angola. O poder económico reforçava ainda mais a sua não dependência, visto que o marfim, a cera e a borracha, que constituíam os produtos principais das trocas comerciais em finais do século XIX, se encontravam essencialmente na parte leste de Angola em áreas controladas pelos Chokwe.
Eram também bons caçadores, tendo acumulado armas de fogo. Por trocas que efectuavam ou por ataques que perpetravam, adquiriam muitas mulheres e escravas, que iam aumentar em grande número a população Chokwe, não só pelo facto de serem muitos, mas por estarem em idade de conceber.
Os Chokwe, para além de serem conhecidos como caçadores-guerreiros orgulhosos e independentes, eram ainda famosos como artistas. Os seus escultores executavam em madeira elegantes figuras humanas e máscaras para os rituais. Uma outra parte em que os Chokwe foram verdadeiros mestres era a pintura mural.
8º OS GANGUELAS grupo etnolinguístico Tchinganguela Pescadores
Os Ganguelas representavam cerca de 7% dos angolanos: os Luimbe, Luena, Lovale, Lutchazi, Bunda, Ganguela, Ambuela, Ambuila-Mambumba, Econjeiro, Ngonielo, Nhemba e Avico. O antropólogo americamo, George Murdock, inclui a maioria destes povos num agrupamento Lunda, juntamente com os Chokwe.
O grupo Ganguela era o mais heterogéneo de Angola. Os anteriores grupos etnolinguísticos descritos, que representavam mais de 95% da população em finais do século XIX, eram todos bantos. Os restantes grupos eram os Khoisans, que eram representantes dos povos que viviam em Angola antes da invasão dos Bantos, depois os portugueses e os mestiços.
9º O GRUPO KHOISAN – Os nativos de Angola
Os Bosquímanos Kung, a sul de Angola, chamavam-se a sí próprios o «povo inofensivo», ou seja, zhu twa si. Aos não bosquímanes, eles chamavam zosi, o que quer dizer «animais sem casco». Segundo eles, os não bosquímanos eram maus e perigosos como as hienas e os leões. Quando os Bantos, ou os «animais sem casco», entraram em Angola, quatro a dez séculos atrás, foram encontrar populações que se dedicavam à caça e que eram de tal modo inofensivas que depressa se deixaram dominar.
Khoisan é uma palavra composta a partir de khoikhoi, que era o nome hotentote que eles se davam a sí próprios, e san, que era o nome que atribuíam aos Bosquímanos.
Em finais do século XIX, alguns milhares de bosquímanos dispersaram-se pela parte sul de Angola e pelo deserto da Calaári, em bandos constituídos por famílias pouco numerosas. Os Bosquímanos, de constituição frágil e de pele amarelada, viviam uma vida nómada sem se fixarem permanentemente.
Por sua vez, Boubacar N. Keita, aborda que:
‘’os Khoisans, pequenos pela estatura – 155 centímetros para os homens e 145 para as mulheres, ter-se-iam formado como entidade particular durante o Paleolítico Superior…as suas características antropológicas, têm suscitado o mais vivo interesse e provocado apaixonante debates entre vários especialistas ’’.
A organização social dos Bosquímanos, assentava simplesmente na família nuclear, a qual, muito raramente, ia para além das vinte pessoas, podendo ser composta por um homem já velho, pela mulher, as suas filhas, genros e netos e talvez ainda por um ou dois filhos solteiros.
OS TRÊS PRINCIPAS GRUPOS ETNOLINGUÍSTICOS DE ANGOLA E SUAS RESISTÊNCIAS CONTRA O MOVIMENTO COLONIAL PORTUGUÊS
Dentre estes grupos citados acima, adianta-nos caracterizar neste artigo, os três principais grupos etnolinguísticos de Angola, que segundo Edmundo Rocha, a sua população era, em 1960, a seguinte:
§  Ovimbundu (Umbundu) .........................     1 750 000
§  M’Bundu (Kimbundu) …………………..      1 050 000
§  Bakongo (Kikongo) ……………………..         620 000
Os três grandes grupos étnicos são por ordem decrescente da população são os Ovimbundu, os M’Bundu e os Bakongo, que representam cerca de 75% da população e ocupam as regiões economicamente mais importantes, o litoral, o litoral norte e centro e o planalto central. Os dois primeiros grupos étnicos, são essencialmente angolanos, ao passo que os Bakongo faziam parte do grande reino do Congo, radicado historicamente numa área que abrange o ex-Congo Francês, o ex-Congo Belga e o norte de Angola. Entre os três grandes grupos étnicos angolanos, foram os M´bundu/Kimbundu que tiveram os contactos mais prolongados, contínuos e profundos com os portugueses. Com efeito, após a fundação de S.Paulo de Luanda, no dia 25 de Janeiro de 1575, os portugueses progrediram para o interior, encontrando uma grande resistência por parte do povo M’bundu.
Só um século depois, em 1671, conseguiram estabelecer-se em Pungo Andongo, e séculos depois (1870), em Cassange. Entretanto, empurrados para o interior, os M’bundu criam os reinos de Matamba e Cassange. É no decurso desta progressão que aparece a figura mítica da rainha N’zinga M’Bandi Ya-Ngola Kia Samba (1584-1663).
A estrutura politica e social dos grandes reinos M’bundu do interior, manter-se-à homogénea até ao século XX, sendo pouco «aportuguesados», referindo-se principalmente aos reinos da Matamba e de Kassanji; ao passo que as populações M’bundu do litoral, submetidas desde cedo ao domínio colonial, são profundamente dispersas, desestruturadas, cristianizadas e «portuguesadas».
Os Ovimbundu ou Umbundu (Galengue, Huambo, Bailundo, Bié), povos numerosos e empreendedores, estabelecem a ligação entre o litoral e os povos longínquos, Lunda – Quiocos e Ganguelas, com quem comerciam e onde se vão aprovisionar de escravos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
§  FELIZARDO, Herlânder (2005) ''ANGOLA: Campo de Missões Cristãs''.
§   HENDERSON, Lawrence W. (1990) ''A Igreja em Angola'', Editorial Além-Mar, Lisboa.
§  ROCHA, Edmundo (2009) ''ANGOLA – Contribuição ao Estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano, (período de 1950-1964)'', Editora DINALIVRO, Lisboa.
§  MEDINA, Maria do Carmo (2005) ''ANGOLA – Processos Políticos da Luta pela Independência'', Edições Almeida, Coimbra.
§  NETO, Teresa da Silva (2010) ''História da Educação e Cultura de ANGOLA: Grupos Nativos, Colonização e Independência'', Garrido Artes Gráficas – ALPIARÇA.
§  KEITA, Boubakar N. (2009) ''História da África Negra'', Textos Editores, Luanda.
§  WHEELER, Douglas; PÉLISSIER, René (2011) ‘’História de Angola’’, 1ªEdição, Tinta de China Edições, Lisboa.
Leia também:
§  ANGOLA: Trilhos para o Desenvolvimento – F.Zau